terça-feira, 25 de agosto de 2026

Ética e Moral - Nietzsche está Morto

 

   Vamos começar (eu e o leitor) com Mário Ferreira dos Santos no livro "Cristianismo: A religião do homem" e depois seguiremos com a "Genealogia da Moral" de Nietzsche.

   E não estamos falando de religião aqui, mas de Ética e Moral, uma das bases de toda Religião, da Filosofia e, por que não dizer, da vida!
   A partir do parágrafo 56, Mário começa a discorrer sobre o assunto - e não precisa se preocupar, não terá de contar os parágrafos, pois o livro foi escrito enumerado em parágrafos. Leia o livro todo, porém, caso quiser, vá direto a esse parágrafo 56.
   No parágrafo 59, Mário, em sua clareza costumeira, começa definindo etimologicamente: "...em grego, valor é axios e o homem é antrophos, daí chamarem a esses valores axioantropológicos".
   No parágrafo 60, Mário diz: "Os atos continuados constituem o costume (o que os gregos chamavam ethos e os latinos mos, moris, de onde vêm Ética e Moral)."
   A etimologia das palavras às vezes ajuda às vezes atrapalha; na maioria das vezes ajuda.
   Os atos éticos ou morais são atos que têm valor, porém, "valor" neste sentido refere-se à dignidade, não ao preço. Refere-se à categoria de Qualidade e não de Quantidade (Aristóteles), pois qualidade, nesta acepção, remete a "valor" e quantidade, nesta acepção, remete a preço.
   "Assim, toda vida prática do homem gira em torno da Ética."
   A partir do parágrafo 61, Mário começa a fazer a distinção entre Moral e Ética e diz que essa distinção não é arbitrária porque a Ética estuda o dever-ser humano e a Moral descreve e prescreve como se deve agir para realizar esse dever-ser.

   "A Moral é variante, mas a Ética é invariante."
   "Aqueles que dizem que a Ética é vária, porque a Moral é vária, confundiram a Moral com a Ética." Mário chama esses de "os detratores da Ética e da Moral" e diz que alguns fazem isso de propósito para obterem vantagens antiéticas, imorais e amorais.

   Mário nos diz, com base na realidade, no apodítico e na auto-evidência que a Ética deve ser consagrada ao universal.
   Por exemplo: matar é errado!... e ponto final. Todo ser humano sabe disso porque nasce sabendo disso, é um Princípio.
   Porém, caso eu matar em legítima defesa, é errado?
   Isso é uma discussão Moral.
   Dando um exemplo mais claro ainda: todo juri em que uma pessoa que matou alguém (homicídio) e é julgada pelas leis humanas, é uma discussão Moral, pois a Ética já foi infringida.
   Porém, por a Ética já ter sido infringida não significa que ela não é invariante, pois o termo "invariante" refere-se às leis divinas ou leis naturais, depende se você acredita ou não em Deus, mas tais leis são as mesmas: todo mundo sabe que matar é errado e mesmo tendo infringido o "não matar", o princípio continua sendo errado, mesmo que todo mundo faça.
   Daí vem o Direito Penal, Direito, Civil, Direito Natural, etc.
   E isso se aplica a não mentir, não roubar, não trair, etc.
   No Brasil, essa confusão é evidente e proposital feita pelos detratores da Ética e da Moral, como bem disse Mário.
   Confunde-se Ética com Moral, troca-se uma pela outra, não se sabe do que se está falando... vira uma confusão mental.
   Temos em empresas privadas e públicas, por exemplo, os tais "códigos de ética" (missão, valores, etc) que, na verdade, são códigos de moral porque permitem discussões; e não é uma simples questão de nominação porque a Ética é invariante (não enseja discussões) e a Moral é variante (enseja discussões).

   A Moral é a discussão em torno da Ética.

   Matar, mentir, roubar, trair, corromper, etc, todo ser humano sabe que isso é errado.
   As justificativas e desculpas que você dá do porquê você matou, traiu, mentiu, etc, são discussões Morais.
   E é necessário saber essa distinção, senão você não saberá distinguir entre uma e outra.
 
   Vamos imaginar que não exista Deus, que Ele seja uma invenção do ser humano, ou seja, teríamos certeza de que Deus não existe.
   Vamos imaginar que Moisés, o da Bíblia, quando subia ao Monte Sinai - segundo se sabe fez isso 8 vezes - para "falar" com Deus era tudo jogo de cena, Moisés subia para controlar o povo, sendo que naquela específica subida ao Monte Sinai na qual desceu com as Tábuas da Lei, inventou essa "estória" de um deus entalhando furiosamente as tábuas de pedra a raios e marteladas divinas no cinzel sagrado e sei-lá-mais-o-quê.

   Vamos mais além, vamos imaginar que a Bíblia inteira é uma alegoria, uma estória de ficção composta de várias estórias da carochinha. Vamos imaginar que os Dez Mandamentos sejam mesmo somente 10 e sejam, resumidamente (apesar das várias versões), os que se seguem:
1- Não ter outros deuses diante de mim.
2- Não tomar em vão o Nome do Senhor teu Deus.
3- Guarda o dia de sábado para santificar.
4- Honra teu pai e tua mãe.
5- Não matar.
6- Não pecar contra a castidade.
7- Não roubar.
8- Não mentir.
9- Não desejar a mulher do próximo.
10- Não cobiçar as coisas alheias.

   Independentemente de ter sido Deus ou Moisés quem entalhou as pedras, vamos analisar logicamente esses enunciados ou proposições ou imperativos... ou Mandamentos mesmo.

   Supondo que você não acredite que Deus exista e que você seja nada religioso, então podemos tirar os 3 primeiros da lista. Supondo que você não acredite que o Deus da Bíblia exista e que você seja um pouquinho religioso vamos tirar os 2 primeiros da lista porque você bem pode tirar o sábado (ou o domingo) para rezar para teu Deus, seja lá qual Ele for, para ir num balneário, ficar de folga com a natureza, ir à praia, ficar em casa fazendo nada, etc.

   Contudo, vamos analisar seguramente os outros 7 mandamentos que independem de você acreditar na existência de um ser supremo, de um Deus, de vários deuses, etc, independem até de você ser uma pessoa religiosa, espiritual, espirituosa, ateu, atéia, a toa, etc de novo.
   Vamos chamar esses 7 mandamentos agora de "Princípios Éticos". Vamos tomar o número 5, Não Matar, e analisar à luz da Filosofia.
   Sabe-se que "Princípio", em Filosofia, é aquilo que está no início e antes não precisa ter nada, nem mesmo uma explicação em palavras... pode até ter uma explicação em palavras, mas não se faz necessário.
   Todo mundo sabe que matar é errado em si, o ser humano nasce sabendo disso.
   Ética é, grosso modo, faça o certo e não faça o errado, tem de cumprir essas duas premissas ao mesmo tempo.
   Moral é a discussão em torno da Ética.
   Por exemplo, um Júri de homicídio é uma discussão Moral porque o Princípio Ético "Não Matar" já foi infringido, então, discutem-se as circunstâncias em torno disso. Mesmo você sendo ateu, religioso, etc, tudo é uma questão de Ética e Moral, simples assim.
   Na Moral, o ser humano discute e mente em torno dela. Legítima defesa, por exemplo: eu posso matar em defesa minha ou de terceiros? A resposta dessa pergunta vem de uma discussão Moral.
   Eu, vendo minha filha sendo estuprada, salvo ela e não mato o estuprador?
   "Não tenho sangue de barata", dirá você.
   Caso você seja uma pessoa essencialmente ética, você não matará em circunstância nenhuma.
   O único ser humano essencialmente Ético de quem se tem notícia foi Jesus Cristo, foi o único que cumpriu à risca os Mandamentos ou Princípios Éticos. É claro que Jesus não teve filha e, de bônus, fazia milagres, então a comparação foi, neste sentido, injusta, mas Jesus foi o único que conseguiu a façanha de Não matar, Não Mentir, etc. Pelo menos é o que se sabe.

   Nietzsche, em A Genealogia da Moral, passa dando alfinetadas no Cristianismo numa vã tentativa de combatê-lo, e apesar de terminar a vida louco no hospício - Nietzsche está morto e Deus está vivo - temos de concordar com ele em algumas partes.
   Na Primeira Dissertação ele levanta a questão entre "bom e ruim" e "bem e mau" e chega à conclusão de que esses dois valores contrapostos "travaram na terra uma luta terrível, milenar; e embora o segundo valor há muito predomine, ainda agora não faltam lugares em que a luta não foi decidida".
   O que nos interessa aqui é o que ele chama antes de "a moral dos escravos" que é pautada pela "moral dos senhores", pois aquela decorreu desta, baseada no ressentimento onde as fraquezas são transformadas em virtudes: "a impotência que não acerta contas é mudada em 'bondade'; a baixeza medrosa, em 'humildade'; a submissão àqueles que se odeia em 'obediência' (há alguém que dizem  impor essa submissão - chamam-no Deus). O que há de inofensivo no fraco, a própria covardia na qual é pródigo, seu aguardar-na-porta, seu inevitável ter-de-esperar, recebe aqui o bom nome de 'paciência', chama-se também a virtude; o não-poder-vingar-se chama-se não-querer-vingar-se, talvez mesmo perdão ('pois eles não sabem o que fazem - somente nós sabemos o que eles fazem!). Falam também do 'amor aos inimigos' - e suam ao falar disso." (página 38).
   "Os Judeus principiaram a revolta dos escravos na moral cuja rebelião tem atrás de si dois mil e tantos anos de história". Nietzsche confunde um pouco o Judaísmo com o Cristianismo, mas é compreensível, talvez fosse a insanidade já colocando as garras na mente dele. Brincadeiras à parte, o mundo atualmente parece-me baseado no ressentimento, na moral dos escravos, na mentira e no fingimento. O ser humano moderno é o ser humano do ressentimento. Ressentimento este que vem da estupidez de uma humanidade cada vez mais estupidificada.
   O que se pode concluir é que a "moral dos escravos" de Nietzsche é uma distorção da moral em si, "é algo próprio do ressentimento: a moral escrava sempre requer, para nascer, um mundo oposto e exterior, para poder agir em absoluto - sua ação é no fundo reação." Não posso deixar de lembrar nessa hora - não-sei-o-porquê - de Karl Marx e Engels e as "lutas de classes" que também são baseadas no ressentimento e na estupidez das massas.
   Por exemplo, entre o que chamam de Comunismo e o que chamam de Capitalismo, qual representa a moral dos escravos e qual representa a moral dos senhores?
   É somente uma mentira para manter uma luta ilusória entre duas entidades incorpóreas que tem nomes (signos) diferentes com o mesmo significado e o mesmo referente: concentração de dinheiro e poder nas mãos de poucas pessoas às custas da miséria e do sofrimento da maioria.

   Na Segunda Dissertação ele trata da "Culpa, má consciência e coisas afins".
   Na Terceira Dissertação: "O que significam ideais ascéticos?"

   Ética é isso: faça o certo e não faça o errado, Ética é Divina!
   Moral são as discussões em torno da Ética, Moral é do Ser Humano!




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